A La La Lândia e a Academia

Este é um texto opinativo. Você não é obrigado a concordar, mas sim a ser respeitoso nos comentários. Obrigada! 🙂

Todo ano é a mesma coisa. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas seleciona filmes para sua premiação anual, o Oscar, maior premiação da indústria do entretenimento. Atualmente, dez são as vagas para os selecionados na categoria principal, “Melhor Filme”. A medida de ampliação das vagas (antes eram 5), implementada há alguns anos, tem por objetivo dar espaço às obras independentes, que muitas vezes possuem bons roteiros e qualidade, mas não são blockbusters.

Isso intensificou algo que já acontecia há bastante tempo: filmes feitos exclusivamente para ganhar Oscars. Se antes o prêmio ainda tinha algum verniz de mérito, cada vez mais se percebe que existe uma fórmula, mesmo que subjetiva, para chamar a atenção e cativar os velhinhos da Academia. E mais do que nunca, esta fórmula vem sendo explorada à exaustão.

Ano passado, foi “O Regresso“. O filme foi feito com duas claras finalidades: dar Oscars a Inarritu, seu diretor, e ao ator Leonardo Di Caprio. Obviamente é um puta filme. E recebeu várias indicações. Mas depois de muitos anos acompanhando a premiação, você começa a sacar os critérios que tornam um filme mais suscetível a ser indicado. E naturalmente os macacos velhos da indústria do cinema também.

Aí chegamos a La La Land. Ótimo filme. Musical fofinho. Melodias que grudam na cabeça. A boa e velha celebração do glamour hollywoodiano. A glorificação da indústria dos sonhos. “Tudo pode ser, só basta acreditar”, já dizia a Xuxa. Só que não né gente?

La La Land pode te deixar apaixonado ou te entediar enormemente, só vai depender de você. Eu gosto de musicais coloridos. E eles são uma aposta muito inteligente: agradam um público abrangente (de crianças a idosos), são bilheteria potencialmente fácil de fazer e, o principal, são amados pelos velhinhos da Academia. O filme foi feito sob encomenda para ganhar uns 5 Oscars (foi indicado a 14, mas não tem como levar todos). Mas agora vem a parte em que você vai me odiar, caro leitor.

La La Land nada mais é do que uma punheta cinéfila. Sim. Uma punhetinha. Não me levem a mal, a punheta tem o seu lugar, certo? Mas eu já estou cansada disso (das punhetas cinéfilas =D). Eu acompanho Oscar tem uns bons 10 anos e que coisa chata continuarem a fazer filme desse tipo. “O Artista”, lançado em 2011, foi feito com a mesma finalidade, história relativamente parecida e um filme muito melhor. E 5 anos depois outro musical homenageando Hollywood. Ô indústria egocêntrica do cacete. Tudo sempre tem de ser sobre ela.

E tem de ter um certo conhecimento para entender La La Land em sua integralidade. De que servem as cenas de sapateado se você não viu Cantando na Chuva? Sem Gene Kelly ou Fred Astaire, o que fariam Ryan Gosling e Emma Stone? Boa parte do público que vê o filme fica encantado, mas como muitos deles estão vendo aquilo pela primeira vez, duas coisas acontecem: 1. empolgação excessiva (não temos mais os vídeo-clipes no nosso cotidiano e o filme é um grande vídeo-clipe, ao qual os millenials não estão acostumados) e/ou 2. falta de referência total (e consequente diluição do que o filme tenta passar). Mas quanto ao 2, o alvo do filme são os velhinhos da Academia e eles tem TODAS as referências, então fodas né?

O que me deixa triste é que esse tipo de produção feita por encomenda, com orçamento gigante e atores super bem pagos, ofusca outros filmes muito bons e mais originais, sejam nas indicações do Oscar ou até mesmo nas salas de cinema. E é aí que o Netflix samba: os La La Land da vida ganham dinheiro para serem lançados no cinema, os bons filmes então buscam a Netflix para serem lançados e o nível de qualidade das produções originais só sobe (3 produções originais do Netflix foram indicadas ao Oscar esse ano). Aí reclamam que as pessoas não vão ao cinema mais? Mas pra que? Para cada La La Land existem 5 bons filmes da Netflix e também da HBO. Pra que que eu vou sair da minha casa e gastar grana? Ingresso de cinema tá caro!

Mas que coisa triste não poder ver o filmaço “A qualquer custo” numa tela gigante porque 5 salas do shopping passam La La Land. Jeff Bridges e Chris Pine estão primorosos. E “Animais Noturnos”, um dos melhores filmes do ano e que foi totalmente esnobado pela Academia? Sendo que é uma verdadeira obra-prima? Melhor do que ele só “A Chegada”, um filme que à primeira vista parece ser a ficção científica padrão, mas na verdade é um estudo aprofundado, complexo e primoroso da natureza humana. “Estrelas Além do Tempo” não só é um bom filme, como uma história que precisava ser contada. E já não era sem tempo. Merecia mais indicações. Mas não agrada aos velhinhos tanto assim.

Eu gostei de La La Land, mas estou cansada de filmes assim. Estou naquela fase cínica da vida e com certeza o momento no qual você se encontra influenciará sua percepção desse filme. Acho que se a indústria quer se renovar, a saída não está nesse tipo de filme mais manjado, mais clichê. Ninguém é feliz e colorido o tempo todo. Os velhinhos vão ficar cada vez mais idosos e eu espero que seus lugares sejam ocupados no futuro por profissionais mais preocupados com representatividade e relevância. Do contrário, podem ir aposentando as salas de cinema, elas não servirão pra nada.

Post Author: Priscila Armani

mm
Jornalista por formação, Cinéfila por paixão, Crítica por masoquismo. Me aventurando nesse mundo louco da produção de conteúdo ao produzir e apresentar o Podcast O que Assistir.