Com amor, Van Gogh

Este texto contém spoilers do filme, gentileza ler apenas após assistir.

Steven Naifeh e Gregory White abalaram as estruturas do mundo da arte quando lançaram, em 2011, seu livro “Van Gogh: A Vida”. Nele, apresentavam uma das teorias mais revolucionárias sobre o artista: a de que ele teria sido morto por René Secrétan em vez de ter se matado. O Museu Van Gogh, em Amsterdã, declarou, na época, que a declaração era intrigante, mas não podia ser levada a sério de forma precipitada. Cinco anos depois, essa possível reinterpretação da história é explorada com maestria por “Com amor, Van Gogh”, animação dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman, numa co-produção entre Polônia e Grã Bretanha.

O filme é provavelmente a homenagem mais bonita já feita ao pintor e à sua obra. Inspirado em suas pinturas e nos personagens que fizeram parte de sua vida, a animação traz Armand Roulin (Douglas Booth), o filho do carteiro, em busca de Theo Van Gogh, para a entrega de uma carta perdida pelo pintor. O enredo então se transforma numa investigação muito interessante, que nos faz repensar completamente a noção de quem era aquele artista. Ao saber que Vincent pode não ter se matado, é ainda mais trágica sua morte, tendo em vista seu não reconhecimento em vida e as dificuldades de saúde que superou, com perspectivas reais de melhora em seus anos finais. Inevitável pensar no que ele poderia ter produzido, quem ele teria se tornado, se um acidente estúpido ou uma rivalidade imbecil não o tivesse tirado tão cedo de sua trajetória.

Some-se a isso interpretações memoráveis de Helen McCrory, Saoirse Ronan e Jerome Flynn e temos um filme soberbo, que se torna ainda mais impressionante pela capacidade de seus 100 pintores de captar essas emoções em 853 pinturas. A primeira vez que vemos Jerome Flynn em tela é verdadeiramente memorável, pois temos a reprodução exata de “Retrato de Dr. Gachet”, um dos quadros mais famosos e caros de Van Gogh (vendido por US$ 80 milhões na década de 1990). Também é de arrepiar quando temos Saoirse Ronan ao piano, reprodução de “Marguerite Gachet ao piano”, quadro que a mesma guardou em sua casa por quase 50 anos após a morte do pintor. O nível de detalhe, o cuidado, o capricho, são de deixar qualquer admirador de arte embasbacado. Nada disso seria possível, obviamente, sem o apoio do Museu Van Gogh, o maior acervo de informações sobre o artista: como viveu, as técnicas que usou, as cartas que escreveu, como viveu seus últimos dias.

No filme, eles explicam bem de passagem como todo esse acervo se tornou possível: Johanna van Gogh-Bonger, esposa de Theo, dedicou-se a compilar as cartas do cunhado e a promover suas obras de arte por toda a Europa, sendo ela a responsável pela fama que Van Gogh alcançaria tantos anos depois de sua morte. Seu filho, Vincent Willem van Gogh, deu continuidade a esse legado e fundou o primeiro museu em homenagem a seu tio. Esse acervo foi repassado ao governo holandês e parte dele está hoje em Amsterdã.

Van Gogh foi um artista apaixonado e transmitiu isso de forma muito intensa à sua obra. O filme faz justiça ao seu legado e é, de sua própria forma, uma obra de arte por si só. Quisera eu ter o privilégio de ter uma de suas 853 telas. Ah, uma curiosidade! Em uma das telas, temos uma mosca, que ficou presa na pintura. Te desafio a rever o filme e a encontrar lá.

Post Author: Priscila Armani

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Jornalista por formação, Cinéfila por paixão, Crítica por masoquismo. Me aventurando nesse mundo louco da produção de conteúdo ao produzir e apresentar o Podcast O que Assistir.