Corra: o protesto no entretenimento

Maluquice demais a pessoa deixar de assistir a um filme por pré-julgamentos, certo? Foi o que me aconteceu com Corra!, filme do Jordan Peele lançado em maio do ano passado. O filme é vendido para o público como sendo terror e eu sou a pessoa mais medrosa que você conhece. Ainda não assisti “It” (e não pretendo). Eu perco muito com isso? Sei que perco. Mas o medo é gigante.

Aí eu decidi, num ato de coragem, assistir Corra!, morrendo de medo. E o filme não é de terror, mas sim de suspense, para meu enorme alívio. Um jovem negro, muito bem interpretado pelo Daniel Kaluuya, encara a família tradicional de sua namorada branca num fim de semana inesquecível. Eu já conhecia o ator da série Black Mirror, então sabia que tinha de vir coisa boa disso daí.

Felizmente meus instintos estavam certos. Que filme! Começa trazendo bastante do cenário que já conhecemos, todos os preconceitos clássicos: família de classe alta, branca, privilegiada, cujos únicos negros com os quais possui contato são os empregados. Tentando demonstrar não serem preconceituosos, os pais caem na velha máxima do “Não sou racista, tenho até amigos negros”. O mais impressionante desta primeira parte do filme é que não é nada panfletário, mas fica evidente o desconforto do protagonista e porque ele é inevitável. E esse desconforto irá ser desenvolvido ao máximo, para que, em breve, o público se sinta da mesma forma.

*Spoilers a partir deste ponto*

Na segunda parte do filme, entra o elemento sobrenatural da história, foco dos trailers e que levou muitos a suporem que a obra fosse do gênero terror. A hipnose foi um tema muito certeiro a ser escolhido, pois tem as doses certas e equilibradas dos elementos “desconhecido” e “crível”. Ao mesmo tempo que parece ser algo fantasioso, também parece bastante verossímil uma hipnose ser usada para ajudar pessoas a parar de fumar. Mas se é usada com essa finalidade, porque não seria usada de outras formas? O poder de controlar a mente pode ser usado tanto para o mal quanto para o bem, mas a abordagem do filme é quase inédita em obras do Cinema.

O clímax do filme e seu desfecho me fizeram berrar de satisfação, ainda bem que deixei para assistir em casa. Se bem que imagino muitas pessoas nos cinemas vendo esse filme e reagindo da mesma forma. É muito impressionante a forma como Peele, no roteiro e na execução, consegui encerrar aquela história de uma forma tão satisfatória, com certa leveza e até mesmo sem deixar para lá o debate proposto logo no começo do filme. A questão racial ainda está lá. Mesmo que seja no subconsciente (perdão pelo trocadilho).

*Fim dos spoilers*

Eu recomendo demais Corra!, foi uma das quebras de expectativa mais interessantes que tive nesse começo de ano. O filme prova que podemos fazer críticas sérias ao status quo usando todo e qualquer gênero do entretenimento. O filme pode sim ser um divertimento pipoca e simultaneamente trazer uma questão séria. Podemos passar uma mensagem de reflexão das mais diversas formas. Basta ter talento e querer.

Post Author: Priscila Armani

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Jornalista por formação, Cinéfila por paixão, Crítica por masoquismo. Me aventurando nesse mundo louco da produção de conteúdo ao produzir e apresentar o Podcast O que Assistir.