Felicidade destroçada

Eu deveria estar feliz. Eu deveria estar exultante. Vibrando. Feliz pra cacete.

Mas não consigo. Simplesmente não dá. Era para ser um momento maravilhoso, lindo. Era a recompensa, o reconhecimento, o resultado de um trabalho de anos, ANOS, pessoas antes de mim, gerações antes de mim, que já haviam se mobilizado contra a falta de diversidade sempre demonstrada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos.

Temos o #OscarSoWhite hoje, mas desde sempre movimentos de direitos civis destacaram o quanto a Academia é branca e o quanto os filmes do main stream são embranquecidos. Temos hoje uma hashtag, mas o sentimento sempre existiu. Ano passado houve ameaça de boicote, houve mobilização. E esse ano a Academia e a indústria, como um todo acordaram.

Houve abertura para realizar um filme como Moonlight, houve interesse, o filme é excelente, houve pessoas na Academia que o assistiram, ele foi indicado e ele ganhou.

Sim, ele INACREDITAVELMENTE ganhou, contra tudo e contra todos, contra um lobby absurdo a favor de mais um filme de elenco majoritariamente branco, mas a qualidade falou mais alto, os votantes fizeram sua vontade ser ouvida e sim, SIM, Moonlight GANHOU. Era o melhor filme e ganhou de acordo.

E a Academia ACABOU com esse momento histórico. Sim, foi destruído, destroçado, retirado de nós, todos nós, que gritamos não poucas vezes o quanto o Cinema não nos representava, que choramos ao ver filmes absolutamente inodoros vencendo e ganhando reconhecimento daquela Academia e logo em seguida caindo no esquecimento (cof cof Shakespeare Apaixonado). Nós nos mobilizamos e aguardamos tanto, mas TANTO, por esse momento. E ele foi simplesmente TIRADO de nós.

Em “Estrelas Além do Tempo”, a personagem de Janelle Monae diz que, quando o negro chega perto de uma linha de chegada, o branco vai lá e arreda a linha mais longe. Eu não consigo evitar de me sentir dessa forma. Nós chegamos lá, mas a merda que a Academia fez acabou com nossa vitória, vitória de todos que queriam um Oscar mais plural e representativo, como o mundo globalizado que temos. Que queríamos filmes com mais verdade e mais qualidade. Agora todo mundo só discute erro e envelope trocado.

Moonlight, sua qualidade, o fato de o filme ser uma verdadeira obra-prima de sensibilidade apenas igualada a O Segredo de Brokenback Moutain. A oportunidade de Barry Jenkins de falar com seu coração sobre sua grande conquista. Tudo perdido. Tudo ofuscado. Um momento breve, mas que seria memorável e imprescindível para gerações e gerações de crianças negras, indianas, asiáticas, brasileiras, que quisessem fazer Cinema.

Eu nunca te odiei tanto como eu te odeio hoje, Academia. Hoje eu te odeio do fundo do meu coração.

Post Author: Priscila Armani

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Jornalista por formação, Cinéfila por paixão, Crítica por masoquismo. Me aventurando nesse mundo louco da produção de conteúdo ao produzir e apresentar o Podcast O que Assistir.