Manchester à Beira-Mar

Em 2011, os atores Matt Damon e John Krasinski se reuniram e conversaram sobre a possibilidade de um filme, que seria a estreia de Damon como diretor. A dupla procurou então o roteirista Kenneth Lonergan, indicado a 4 Oscars e autor de roteiros consagrados como “Gangues de Nova York” e “Máfia no Divã”. O roteiro ficou pronto, mas a dupla se envolveu em outros projetos e quando finalmente o financiamento para o filme saiu, Damon estava estrelando “Perdido em Marte” e deixou a cargo de Lonergan, que tinha dirigido apenas dois outros filmes, o roteiro e a direção. Para protagonizar, convocou o amigo de infância Casey Affleck, irmão de Ben Affleck.

O filme em questão é “Manchester à Beira-Mar”, que está indicado a 6 Oscars e chegou a ser eleito o melhor roteiro não realizado de 2014 numa votação on-line, quando ainda estava apenas no papel. As indicações são nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Original e Melhor Direção. Damon permaneceu apenas como produtor do projeto. E com certeza deve estar se lamentando agora.

A obra trata de um tema bastante delicado com grande sensibilidade. Lidar com o luto é difícil, mas mais difícil ainda é fazer um filme sobre essa temática espinhosa que seja respeitoso, sem ser dramático demais, brega, ou insensível. Não é à toa que poucos cineastas se aventurem a fazer algo a respeito. Está longe de ser uma obra prima, mas “Manchester” explora um lado pouco visto do luto: o dia a dia. Como lidar com as questões de ordem imperativa, como enterro, testamento e comunicar aos parentes o ocorrido? E como se sentir a respeito? O que é certo e o que é errado? Há algum tipo de etiqueta? Ninguém pensa nisso, mas, na hora que acontece, alguém tem de pensar. Todos sabemos que vamos morrer um dia, mas poucos se planejam para tal. E o assunto ainda é um tabu a ser quebrado.

Casey Affleck estava bastante cotado para ganhar o Oscar por esse filme, mas eu sinceramente não acredito que ele mereça. Por dois motivos: 1 – não acho que sua atuação seja digna de Oscar. Denzel Washington ganhou o SAG por “Um Limite entre Nós” e eu realmente acredito que ele merece mais. Casey faz um bom trabalho, não me entendam mal. Mas até Viggo Mortensen em “Capitão Fantástico” está mais impactante. 2 – Há acusações sérias contra Casey de assédio sexual e eu realmente acredito que a Academia deva levar isso em consideração na hora de votar. Sério mesmo. Nada de dar prêmio para abusador de mulheres não. Mesmo que ele ainda esteja sob investigação, se paira a dúvida sobre ele é preferível a Academia não inventar moda e deixar pra lá. E eu acho que é isso mesmo que eles vão fazer. E assim espero. Ele não vai ser injustiçado nem nada assim. Tem atores melhores concorrendo com ele, como já disse.

Uma curiosidade muito bacana sobre esse filme é que é o primeiro financiado e distribuído pela Amazon a ser indicado ao Oscar. Netflix está com três filmes indicados ao Oscar esse ano e já teve outras obras indicadas em anos anteriores. Mas esta é a primeira indicação que a Amazon implaca e eu sinceramente espero que não seja a última. A empresa possui minisséries muito boas, como Transparent, da qual eu sou fã. E torço para que cada vez mais invista em conteúdo de qualidade. A competição é saudável e estimula o mercado.

Destaque para a fotografia, bastante puxada para o azul e o branco, valorizando as paisagens de Manchester e enfatizando o quanto a atmosfera entristece e oprime os personagens. Também merece atenção a trilha sonora, composta por música clássica, como Haendel, além de Ray Charles, Ella Fitzgerald e Bob Dylan. Todos esses elementos em conjunto constroem um plano de fundo bastante sóbrio, que impede qualquer distração da temática principal desse filme: a dor. É para assistir com uns lenços de papel do lado. Um filme muito simples, muito singelo, mas bonito.

Observação em tempo: Há apenas uma atriz negra no filme todo. No filme inteirinho. E numa cena das piores. Quando se fala de #OscarSoWhite é dessas coisas que se está falando. Não é mimimi não. É sério.

Post Author: Priscila Armani

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Jornalista por formação, Cinéfila por paixão, Crítica por masoquismo. Me aventurando nesse mundo louco da produção de conteúdo ao produzir e apresentar o Podcast O que Assistir.