Me Chame pelo seu Nome

Não faz muito tempo estava conversando com amigos sobre como eu acreditava que “Azul é a Cor mais Quente” faz uma fetichização do sexo entre duas mulheres e sobre como as cenas de sexo daquela narrativa não fazem diferença nenhuma no enredo nem ajudam a trama a “andar”. Enquanto o amor entre dois homens é responsável por obras-primas como “O Segredo de Brokenback Mountain” e “Moonlight”, “Azul” é um filme bom e emotivo, mas que não deixa de explorar o corpo das atrizes. Dentro desse debate, “Me Chame pelo seu Nome” é mais um exemplo interessante e positivo de como o amor entre duas pessoas do mesmo sexo pode gerar uma bela e instigante narrativa.

A história é baseada em livro de André Aciman, que usa bastante de seu background multicultural para dar cores ao personagem Elio. Mas o enredo é ficcional. Aciman é judeu, nascido em Alexandria, no Egito, e sua família falava francês, italiano, grego e árabe. Mas ele não cresceu nos anos 1980, tendo chegado aos Estados Unidos em 1968, depois de alguns anos refugiado em Roma, na Itália, com parte de sua família.

Elio (Timothée Chalamet) é um adolescente que se vê às voltas com sentimentos inesperados quando seu pai (Michael Stuhlbarg) recebe um estudante por seis semanas como hóspede: Oliver (Armie Hammer). O personagem tem 17 anos e, apesar disso ser um ponto polêmico do enredo, a história se passa na Itália, onde a maioridade é a partir dos 14 anos. Timothée tinha 20 anos quando participou do filme. E Armie tinha 29. Apesar de (e considerando) tudo isso, existe um debate intenso no filme sobre se seria certo ou errado os dois se relacionarem. A questão é problematizada.

O filme constrói uma tensão gigante em torno deles e, quando nos damos conta, estamos torcendo para que eles fiquem juntos. É uma típica história de amor adolescente, aquela época em que somos tão intensos, vivendo cada dia como se fosse o último. Elio está se descobrindo e, vivendo essa jornada, é impossível não nos identificarmos com ele e lembrarmos do que também já vivemos na mesma época. E tudo isso em meio a um dos cenários mais bonitos do mundo: o norte da Itália. Diversas filmagens foram feitas em cidades da Lombardia, especialmente Cremona, que fica a menos de uma hora de Milão. A cidade é a capital do Violino e considerada patrimônio imaterial da humanidade desde 2012.

O diretor do filme, Luca Guadagnino, disse em entrevistas que não queria que a obra focasse em cenas de sexo porque o objetivo dele era levar o espectador a uma viagem emocional com os protagonistas, para que ele entendesse o amor que movia a ambos e como esse amor é universal. Que outros cineastas aprendam com ele, pois “Me Chame pelo seu Nome” é sem dúvida uma das histórias de amor mais sensíveis do Cinema. E quando a cena de sexo existe ela é poética, bem construída e fundamental dentro da narrativa, trazendo mudanças nas trajetórias dos personagens. A partir dela, muito se agrega ao enredo e aos protagonistas. E não temos exploração dos atores nem dos corpos que estão nas telas. Quem dera tivéssemos mais histórias de amor assim, no Cinema e na vida real. É como diz o pai de Elio: um amor tão arrebatador e orgânico é muito raro.

Post Author: Priscila Armani

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Jornalista por formação, Cinéfila por paixão, Crítica por masoquismo. Me aventurando nesse mundo louco da produção de conteúdo ao produzir e apresentar o Podcast O que Assistir.